12 de mar de 2015

O lugar sem limites - José Donoso







O Lugar sem Limites é o segundo romance do chileno José Donoso (1924-1996), que se destaca ao lado de Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Cortázar como um dos mais importantes escritores do chamado “boom literário latino-americano” do século XX. Publicado em 1965, o livro conta a história da travesti Manuela, proprietária de um bordel junto com sua filha, Japonesita, num vilarejo chefiado por Don Alejo.

Usando um cenário que é um misto de alegoria bem como de uma boa dose da realidade da América latina, onde o que impera é a violência, o descaso político e uma pobreza extrema, Donoso já colocava em xeque as questões de gênero, o machismo latino americano, nos apresentando a história da Manuela, uma travesti que comanda um bordel com sua filha Japonesita, que só se refere à Manuela por "papai", causando a ela vergonha e raiva, pois se vê como mulher e sofre ainda mais quando diante de todas as suas reiterações a filha não lhe dá ouvidos, e continua se referindo a ela como papai, como que para escancarar a enorme infelicidade de sua própria condição.

"Fausto: Primeiro irei interrogá-lo sobre o inferno.
Diga-me, onde é o lugar que os homens chamam de inferno?
Mefistófeles: Debaixo do firmamento.
Fausto: Está bem, mas onde?
Mefistófeles: Nas entranhas desses elementos, onde somos torturados e ficamos para sempre: o inferno não tem limites, não se localiza num só lugar; porque o inferno é onde estamos, e onde for o inferno, lá estaremos para sempre...

Manuela é uma personagem incrivelmente complexa e vamos descobrindo-a aos poucos, à medida que o dia vai passando, pois o livro relata apenas um dia de sua vida, onde ela reafirma e rememora todos os seus infernos. Um único dia onde ela revive o medo e a esperança que lhe causa a chegada de Pancho Vega, um bruto que já a espancou uma vez e que volta com promessas de fazer o mesmo; mas o corpo, o primeiro e talvez maior inferno de Manuela, e quiçá o de todas as personagens, não quer a agressão prometida, mas o prazer de poder se tornar belo novamente em pleno movimento dentro de seu vestido vermelho...

"A dança de Manuela o golpeia e ele quisera agarrá-la assim, assim, até quebrá-la, aquele corpo que começa a exalar seu odor agitando-se em seus braços e eu com Manuela que se agita, apertando para que não se mexa tanto, para que fique sossegada, apertando-a, até que olhe para mim com aqueles olhos de redoma aterrorizados e enfiando minhas mãos em suas vísceras viscosas e quentes para brincar com elas, deixá-la ali estendida, inofensiva, morta: uma coisa.

Como não poderia deixar de ser, o patriarcado, outro inferno, é reforçado na figura de Dom  Alejo, uma espécie de coronel, senhor de terras e o todo poderoso da região, que ardilosamente manipula a todos com seu carisma, reforçando ainda mais o conceito da má distribuição de renda, a exploração da população mais humilde que se vê à míngua, abandonados num vilarejo perdido no meio do nada, à margem da sociedade. Será que a questão de gênero está assim tão distante da questão política denunciada por Donoso?

Não se engane com o tamanho do romance (ou novela, como alguns propõem), ou com a fluidez da narrativa de Donoso. O Lugar sem limites não é um livro fácil de ser lido; seja pela questão do mote, da sua força e emotividade, bem como pela própria estrutura narrativa. Donoso avança e retrocede no tempo, a voz narrativa também se altera, entre primeira pessoa e a de várias personagens. É um livro triste, melancólico, tão bem retratado pelo o autor, quando imprime o clima frio ao vilarejo que se torna lamacento e mal cheiroso, como se estivesse descrevendo o próprio inferno das personagens, a dor da incompreensão, do abandono, a própria solidão! 


♥♥♥♥♥

O livro também recebeu uma versão cinematográfica em 1978, sob a direção de Arturo Ripstein. 






Título: O Lugar Sem Limites
Título original: El lugar sin límites
Autor: José Donoso
Tradução: Heloisa Jahn
Editora: Cosac Naify
Ano de lançamento: 2013 
Páginas: 160

5 comentários:

Tati disse...

Resenha linda, Paty <3
Coincidentemente o meu chegou aqui ontem, peguei numa troca no skoob e agora estou com mais vontade de ler. Quero muito conhecer a Manuela!
Beijos!

Patrícia Di Carlo disse...

Ah, Tati, que bom que tenha gostado! E eu acho que você vai adorar e vai extrair ainda mais da obra depois de ter lido Paz e Clement! ;o)

Bix xêros, amore!

Aline Aimée disse...

Não sabia que tinha filme!!!
Gostei demais desse romance! Li no ano passado.
E sua resenha ficou excelente, Patinha!

Beijocas!

PinkPaulaS disse...

Será q eu acho versão eletrônica dele? Fiquei interessada. 😘😘

K disse...

Por quê eu ainda não li José Donoso? Por quê? adorei a resenha. adorei, Pati

beijo
Quel