18 de mar de 2015

O Buda no sótão - Julie Otsuka





“Porque se nossos maridos tivessem dito a verdade nas cartas - que não eram mercadores de seda, mas apanhadores de frutas, que não viviam em casas com muitos cômodos, mas em barracas, em celeiros e ao ar livre, nos campos, sob o sol e as estrelas - , jamais teríamos vindo para a América fazer o trabalho que nenhum americano com amor-próprio aceitaria fazer.”



“Porque no Japão a pior ocupação que uma mulher pode ter é a de serviçal.”


Em seu segundo romance, O Buda no sótão, a californiana, de ascendência japonesa, Julie Otsuka (1962) criou uma tapeçaria fina com um texto cru em sua sinceridade direta e emocionante, na qual somos capaz de vivenciar o sofrimento de toda uma comunidade, mas sem ser, de forma alguma, sentimentaloide; sendo ainda surpreendente o fato de tê-lo feito em um romance tão curto, já que o livro tem apenas 144 páginas.

O Buda no sótão é um romance centrado na vida de mulheres japonesas que emigraram para os Estados Unidos no início do século XX com a promessa, feita por seus desconhecidos maridos, conseguidos através de agências de matrimônio, de uma vida melhor na América; e segue até o lento desaparecimento de comunidades inteiras, enviadas, de forma vergonhosa e traumática, para os campos de concentração no Estados Unidos durante a Segunda Guerra, mais precisamente após o ataque a Pearl Harbor. 

“No navio éramos quase todas virgens”

Notamos, pela primeira frase do livro, que no romance não há uma protagonista, mas que este é narrado com uma espécie de coro, onde cada voz é a de todas as mulheres, onde o "nós" dá vida às experiências e relatos de toda uma individualidade, de vivências pessoais que se somaram. Fragmentos de estórias que falam de suas esperanças, dificuldades de adaptação, da exploração da mão de obra nos campos, a criação dos filhos que crescem aprendendo somente o inglês, até a gradual evacuação para os campos de concentração. O romance também é composto por capítulos que são todos temáticos, como o segundo, e o mais forte pra mim, Primeira noite, onde são relatadas as várias formas como as mulheres japonesas passaram a sua primeira noite com seus maridos que em nada eram como lhes haviam dito. 

" Naquela noiter nossos novos maridos nos possuíram prontamente. Nos possuíram com calma. Nos possuíram com gentileza, mas com firmeza, e sem dizer uma só palavra. Eles partiram do principio de que éramos as virgens que os casamenteiros haviam prometido, e por isso nos possuíram com cuidados excessivos(...) Eles nos possuíram como se nos merecessem e presumiram que faríamos por eles o que quer que fosse dito. Por favor, vire para a parede e se apoie sobre as mãos e os joelhos. Eles nos pegaram pelos cotovelos e disseram baixinho: "está na hora". Eles nos possuíram antes de estarmos prontas e por isso o sangramento não parou por três dias(...) Nos possuíram com cobiça, com fome, como se estivessem esperando para pegar uma de nós havia mil anos(...) Eles nos possuíram violentamente, com os punhos, sempre que tentávamos resistir. Eles nos possuíram apesar das mordidas(...) Eles nos possuíram de surpresa, já que algumas de nós nunca tinham recebido instruções da mãe sobre o que exatamente aquela noite representava. Eu tinha treze anos e nunca havia olhado um homem nos olhos."

Cada capítulo se interliga de maneira perfeita, sem deixar nenhum fio solto nessa intricada tapeçaria e o ritmo é mantido de maneira impecável e vemos como, depois de décadas em solo americano, os japoneses ainda são submetidos à espoliação de seus bens e à humilhação maior, devido à ridícula xenofobia, que é o envio aos campos de concentração, como se da noite para o dia a condição tivesse se transmutado de uma vez, e o que era vítima, explorado, passasse a ser traidor. E é aqui que o "nós" cede lugar ao "eles".


“Agora, sempre que converso com alguém, tenho que me perguntar: Será que essa pessoa é capaz de me trair? Precisávamos ter cuidado com o que falávamos perto dos nossos filhos mais novos também. O marido de Chieko foi denunciado como espião pelo filho de apenas oito anos de idade. Algumas de nós começavam a refletir sobre o próprio marido: Será que ele tem uma identidade secreta que eu não conheço?”


O Buda no sótão, é, absolutamente, uma das minhas melhores leituras de 2015, devido a sua força, a sua poesia e à coragem de abrir uma fresta numa das passagens históricas mais abjetas do século XX, e que, até hoje, poucos se arriscam a lançar um pouco de luz.


♥♥♥♥♥

“Asayo - a mais bonita de nós - partiu do Rancho Novo em Redwood carregando a mesma maleta de junco que havia trazido consigo 23 anos atrás no navio. Ela ainda parecia novinha em folha. Yasuko partiu do apartamento em Long Beach com uma carta de um homem que não era o marido, cuidadosamente dobrada e guardada dentro do estojo de maquiagem no fundo da bolsa. Masayo partiu depois de ter dado adeus ao filho mais novo, Masamichi, no hospital de San Bruno, onde ele morreria de caxumba no fim daquela semana. Hanako partiu com medo e com tosse, mas tudo o que tinha era um resfriado. Matsuko partiu com uma dor de cabeça. Toshiko partiu com febre. Shiki partiu em transe. Mitsuyo partiu com náuseas e com uma gravidez inesperada, pela primeira vez na vida, aos 48 anos de idade. Nobuye partiu se perguntando se havia desligado o ferro de passar roupa, que usara pela manhã para retocar as pregas da blusa. Preciso voltar, ela dizia para o marido, que só olhava para a frente e não respondia. Tora partiu com uma doença venérea contraída na última noite no Hotel Palace. Sachiko partiu praticando o abecedário como se fosse apenas um dia qualquer. Futaye, que tinha o melhor vocabulário de todas nós, partiu atônita. Atsuko partiu com o coração despedaçado depois de se despedir de todas as árvores de seu pomar. Eu as plantei quando eram mudas. Miyoshi partiu com saudades de seu cavalo grande, Ryuu. Satsuyo partiu procurando os vizinhos, Bob e Florence Eldridge, que haviam prometido aparecer para se despedir. Tsugino partiu com a consciência tranquila depois de gritar um segredo horrível e há muito tempo guardado dentro de um poço(...) Shizue partiu do Acampamento número 8 na Ilha Webb entoando um sutra que havia acabado de lembrar depois de 34 anos. Meu pai costumava recitá-lo todas as manhãs diante do altar (…) Chiyoko, que sempre insistira para a chamarmos Charlotte, partiu insistindo para que a chamássemos Chiyoko. Mudei de ideia pela última vez (…) Haruko partiu deixando uma pequena imagem de latão de um Buda risonho lá no alto, em um canto do sótão, onde ele ri até hoje.”

PS: Depois de ler a excelente resenha da Juliana Brina em seu blog O Pintassilgo, fico até encabulada das minhas parcas palavras, mas leiam a resenha dela se não os motivei a ler o livro, com certeza os argumentos dela lhes dará uma luz nova! ;o)




Título: O Duda no sótão
Título original: The buddha in the attic
Autora: Julie Otsuka
Tradução: Lilian Jenkino
Editora: Grua
Ano de lançamento: 2014
Número de páginas: 144



2 comentários:

Marcia Cogitare disse...

Paty, que resenha forte e sensível, fiquei muito interessada no livro, realmente não o conhecia.

E obrigada por compartilhar suas leituras, é sempre bom essa troca de figurinhas.

Hug :D

Michelle disse...

Adorei a resenha, Pati!
Me lembrou um pouco "Corações Sujos", mas do ponto de vista das mulheres.
Botando na lista de desejados já!
bjo